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Ah! Deixa, vai?
- Ah! Deixa, vai?
- Não sei, filha... Quem é que está indo?
- Vamos só eu e a Janete. Mas vamos ficar na casa dos tios dela.
- E as passagens?
- A tia Conceição conseguiu vagas num vôo da FAB.
- Aqueles aviõezinhos? Perigoso demais!
- Mas, mãe!... Todo mundo voa neles. Deixa! Por favoooor?
Mamãe ponderou, mas cada novo argumento seu era sempre, pronta e logicamente combatido. Estava quase cedendo.
Virou-se para o Nando e perguntou sua opinião. Na ocasião ele ainda não era o baluarte das decisões da família. Não passava de outro fedelho, apenas quatro anos mais velho do que eu que estava ansiosa por aproveitar a oportunidade de, em plenas férias chuvosas de Brasília, poder passar uns dias no Rio de Janeiro, na beira da praia, na companhia de minha grande amiga.
Só muitos anos mais tarde ele viria a assumir este posto e importância, para ciúmes e provocações dos outros irmãos, eu inclusive, que a qualquer ocasião em que ela nos nega alguma coisa, brincamos com ela:
- Se fosse o Fernaaaaaaando, você fazia/chamava/ia ou seja qual for o verbo no pretérito imperfeito para insinuar que ela daria um tratamento diferenciado se o filho requisitante fosse o Fernando.
Naquele dia, ele ainda não era o Fernaaaaando, e ela lhe perguntou apenas na esperança de ganhar tempo, enquanto se munia com mais contrapontos, razões para justificar sua decisão de não deixar-me viajar. E ele, se por entender a posição dela ou apenas pelo prazer de ver-me contrariada:
- Ih, mãe... Melhor não, né? Essas duas soltas no Rio de Janeiro, já pensou?
- É isso mesmo. Pronto! Está acabado. Não vai e pronto.
- Mas, mãe!!
- Chega, minha filha! Não quero mais falar sobre isso.
Quando a decisão já está tomada, tudo é motivo ou pretexto. Mesmo a falta de motivo e pretexto ganha força de lei. E assim, lançando um olhar furioso para ambos, fui chorar na cama que é lugar quente.
Chorar, não. Prantear. Nos estertores da turbulenta adolescência, onde qualquer aborrecimento ganha proporções hecatômbicas, joguei-me na cama, desaguando as mágoas sobre o meu cachorro velho, amarelo, de pelúcia. Passados alguns instantes quem entra no quarto?
Ele mesmo. Meu amado irmão, Fernando. Que ao me ver chorando, pergunta:
- Ué!? O que você está fazendo aí? Achei que estava arrumando as malas...
O cachorro de pelúcia foi convertido em petardo e o atingiu no meio da testa. Senti-me a própria Mônica, do Maurício de Souza, a distribuir coelhadas.
Ele saiu do quarto, rindo, satisfeito da dupla sacanagem.
Eu fiquei na cama, me sentindo miserável, frustrada e impotente. No rádio, tocava um chorinho de Pixinguinha. Escrevi um poema: Chorando (http://www.recantodasletras.com.br/poesiasdedicatorias/900704).
Nunca consegui perpetrar uma vingança à altura, mas ainda faço planos.
Nena Medeiros
Enviado por Nena Medeiros em 07/05/2008
Alterado em 08/05/2008
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